{"id":27038,"date":"2014-04-27T12:31:04","date_gmt":"2014-04-27T12:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalcurated.pt\/webcurated\/?p=27038"},"modified":"2021-08-26T18:20:01","modified_gmt":"2021-08-26T18:20:01","slug":"vasco-graca-moura-1942-2014","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/vasco-graca-moura-1942-2014\/","title":{"rendered":"Vasco Gra\u00e7a Moura 1942 &#8211; 2014"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-27039\" alt=\"Vasco Gra\u00e7a Moura\" src=\"http:\/\/acidadenapontadosdedos.com\/content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura.jpg\" width=\"610\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura.jpg 800w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura-276x184.jpg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura-610x406.jpg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Vasco-Gra\u00e7a-Moura-645x430.jpg 645w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><br \/>\nCom Vasco Gra\u00e7a Moura tinha a cumplicidade da voz\u00a0cr\u00edtica ao novo Acordo Ortogr\u00e1fico. O homem elevado parte, mas retenho-me na mem\u00f3ria das p\u00e1ginas que continuar\u00e3o a respirar na minha biblioteca Atl\u00e2ntica,para toda a eternidade.<\/p>\n<p>n\u00e3o \u00e9s mais do que as outras, mas \u00e9s nossa,<br \/>\ne crescemos em ti. nem se imagina<br \/>\nque alguma vez uma outra l\u00edngua possa<br \/>\np\u00f4r-te incolor, ou inodora, insossa,<br \/>\nser rem\u00e9dio brutal, mera aspirina,<br \/>\nou tirar-nos de vez de alguma fossa,<br \/>\nou dar-nos vida nova e repentina.<br \/>\nmas \u00e9 o teu pa\u00eds que te destro\u00e7a,<br \/>\no teu pr\u00f3prio pa\u00eds quer-te esquecer<br \/>\ne a sua condi\u00e7\u00e3o te contamina<br \/>\ne no seu dia-a-dia te assassina.<br \/>\nmostras por ti o que lhe vais fazer:<br \/>\nvai-se por c\u00e1 mingando e desistindo,<br \/>\ne desde ti nos deitas a perder<br \/>\ne fazes com que fuja o teu poder<br \/>\nenquanto o mundo vai de n\u00f3s fugindo:<br \/>\nruiu a casa que \u00e9s do nosso ser<br \/>\ne este anda por isso desavindo<br \/>\nconnosco, no sentir e no entender,<br \/>\nmas sem que a desaven\u00e7a nos importe<br \/>\nn\u00f3s j\u00e1 falamos nem sequer fingindo<br \/>\nque s\u00f3 ru\u00ednas vamos repetindo.<br \/>\ntalvez seja o processo ou o desnorte<br \/>\nque mostra como \u00e9 realidade<br \/>\na rela\u00e7\u00e3o da l\u00edngua com a morte,<br \/>\no n\u00f3 que faz com ela e que entrecorte<br \/>\na corrente da vida na cidade.<br \/>\nmais valia que fossem de outra sorte<br \/>\nem cada um a for\u00e7a da vontade<br \/>\ne t\u00e3o filosofais melancolias<br \/>\nnessa escusada busca da verdade,<br \/>\ne que a ti nos prendesse melhor grade.<br \/>\nbem que ao longo do tempo ensurdecias,<br \/>\nnublando-se entre n\u00f3s os teus cristais,<br \/>\ne entre gentes remotas descobrias<br \/>\no que n\u00e3o eram notas tropicais<br \/>\nmas coisas tuas que n\u00e3o tinhas mais,<br \/>\nperdidas no enredar das nossas vias<br \/>\npor desvairados, l\u00fagubres sinais,<br \/>\nm\u00edsera sorte, estranha condi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas c\u00e1 e l\u00e1 do que eras tu te esvais,<br \/>\npor ser combate de armas desiguais.<br \/>\nmatam-te a casa, a escola, a profiss\u00e3o,<br \/>\na t\u00e9cnica, a ci\u00eancia, a propaganda,<br \/>\no discurso pol\u00edtico, a paix\u00e3o<br \/>\nde estranhas novidades, a ciranda<br \/>\nde viol\u00eancia alvar que n\u00e3o abranda<br \/>\nentre r\u00e1dios, jornais, televis\u00e3o.<br \/>\ne toda a gente o diz, mesmo essa que anda<br \/>\npor tal degrada\u00e7\u00e3o t\u00e3o mais feliz<br \/>\nque o repete por luxo e n\u00e3o comanda,<br \/>\ncom o bafo de hienas dos covis,<br \/>\nmais que uma vela v\u00e3 nos ventos panda<br \/>\ncheia do podre cheiro a que tresanda.<br \/>\nfoste mem\u00f3ria, m\u00fasica e matriz<br \/>\nde um \u00e1spero combate: apreender<br \/>\ne dominar o mundo e as mais subtis<br \/>\nequa\u00e7\u00f5es em que \u00e9 igual a xis<br \/>\nqualquer das dimens\u00f5es do conhecer,<br \/>\ndizer de amor e morte, e a quem quis<br \/>\ne soube utilizar-te, do viver,<br \/>\ndo mais simples viver quotidiano,<br \/>\nde ilus\u00f5es e sil\u00eancios, desengano,<br \/>\nsombras e luz, risadas e prazer<br \/>\ne dor e sofrimento, e de ano a ano,<br \/>\npassarem aves, ceifas, esta\u00e7\u00f5es,<br \/>\no trabalho, o sossego, o tempo insano<br \/>\ndo sobressalto a vir a todo o pano,<br \/>\ne bonan\u00e7as tamb\u00e9m e tais raz\u00f5es<br \/>\nque no mundo costumam suceder<br \/>\ne deslumbram na s\u00f3 variedade<br \/>\nde seu modo, lugar e qualidade,<br \/>\ne coisas certas, inexactid\u00f5es,<br \/>\nventuras, infort\u00fanios, cativeiros,<br \/>\ne paisagens e luas e mon\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne os caminhos da terra a percorrer,<br \/>\ne arados, atrelagens e veleiros,<br \/>\npedacinhos de conchas, verde jade,<br \/>\ndoces luminesc\u00eancias e luzeiros,<br \/>\nque podias dizer e desdizer<br \/>\nno teu corpo de tempo e liberdade.<br \/>\nagora que \u00e9s refugo e cicatriz<br \/>\nesperan\u00e7a nenhuma h\u00e1s-de manter:<br \/>\no teu pr\u00f3prio dom\u00ednio foi proscrito,<br \/>\nlaje de lousa gasta em que algum giz<br \/>\nse esborratou informe em borr\u00f5es vis.<br \/>\nde assim acontecer, ficou-te o mito<br \/>\nde haver milh\u00f5es que te uivam triunfantes<br \/>\nna raiva e na ora\u00e7\u00e3o, no amor, no grito<br \/>\nde desespero, mas foi noutro atrito<br \/>\nque tu partiste at\u00e9 as pr\u00f3prias jantes<br \/>\nnos estrad\u00f5es da hist\u00f3ria: estava escrito<br \/>\nque iam desconjuntar-te os teus falantes<br \/>\nna terra em que nasceste, eu acredito<br \/>\nque te fizeram avaria grossa.<br \/>\nn\u00e3o rodar\u00e1s nas rotas como dantes,<br \/>\nquer murmures, escrevas, fales, cantes,<br \/>\nmas apesar de tudo ainda \u00e9s nossa,<br \/>\ne crescemos em ti. nem imaginas<br \/>\nque alguma vez uma outra l\u00edngua possa<br \/>\np\u00f4r-te incolor, ou inodora, insossa,<br \/>\nser rem\u00e9dio brutal, v\u00e3s aspirinas,<br \/>\nou tirar-nos de vez de alguma fossa,<br \/>\nou dar-nos vidas novas repentinas.<br \/>\nenredada em vilezas, \u00f3dios, tro\u00e7a,<br \/>\nno teu pr\u00f3prio pa\u00eds te contaminas<br \/>\ne \u00e9 dele essa mis\u00e9ria que te ro\u00e7a.<br \/>\nmas com o que te resta me iluminas.<\/p>\n<p>Vasco Gra\u00e7a Moura in &#8216;Lamento \u00e0 \u00a0l\u00edngua portuguesa&#8217; em\u00a0&#8216;Antologia dos Sessenta Anos&#8217;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Vasco Gra\u00e7a Moura tinha a cumplicidade da voz\u00a0cr\u00edtica ao novo Acordo Ortogr\u00e1fico. O homem elevado parte, mas retenho-me na mem\u00f3ria das p\u00e1ginas que continuar\u00e3o a respirar na minha biblioteca Atl\u00e2ntica,para toda a eternidade. n\u00e3o \u00e9s mais do que as outras, mas \u00e9s nossa, e crescemos em ti. nem se imagina que alguma vez uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":101477,"featured_media":27039,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false},"categories":[18,195],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v16.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Vasco Gra\u00e7a Moura 1942 - 2014 | Sancha Trindade l TV - Published Articles<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Vasco Gra\u00e7a Moura 1942 - 2014 | Sancha Trindade l TV - Published Articles\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Com Vasco Gra\u00e7a Moura tinha a cumplicidade da voz\u00a0cr\u00edtica ao novo Acordo Ortogr\u00e1fico. 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