{"id":32198,"date":"2015-11-18T13:48:51","date_gmt":"2015-11-18T13:48:51","guid":{"rendered":"https:\/\/portugalcurated.pt\/webcurated\/?p=32198"},"modified":"2021-08-26T18:19:19","modified_gmt":"2021-08-26T18:19:19","slug":"nas-margens-de-um-coracao-indivisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/nas-margens-de-um-coracao-indivisivel\/","title":{"rendered":"Nas margens de um cora\u00e7\u00e3o indivis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 &#8216;um oceano de tempo&#8217; desde que recebo as palavras de Valdemar Cruz at\u00e9 as partilhar nesta plataforma Atl\u00e2ntica. \u00c9 numa tarde no escrit\u00f3rio\u00a0onde me consumo pela velocidade, que\u00a0um Mensageiro obriga-me a parar. No texto lind\u00edssimo trope\u00e7o neste tesouro, que ainda hoje me comove. Pelo &#8220;sofrimento indiz\u00edvel&#8221; a quem tamb\u00e9m j\u00e1 perdeu duas das traves mestras, mas na admira\u00e7\u00e3o de um grande homem, que marcou para sempre, o humilde in\u00edcio de uma carreira.<\/p>\n<p>Ainda estudava quando (tamb\u00e9m) num \u201cesp\u00edrito radicalmente livre\u201d me predispus a entrevistar o grande Arquitecto. Com a partida de quem me deu \u00e0 luz, a arrumar a casa de fam\u00edlia, tropecei nas linhas vintage das cassetes dessa entrevista. Lembro-me como se fosse hoje. Sempre vivi num &#8220;mundo libert\u00e1rio&#8221;, sem imposs\u00edveis\u00a0e lembro-me que sombras \u00e0 minha volta me diziam que jamais o conseguiria. Marquei a entrevista pelo telefone. Seria estranhamente num evento cat\u00f3lico.\u00a0Muitos\u00a0me conheciam. Nesse dia, com vinte e poucos anos, quando me aproximei, apenas para dizer que era eu &#8216;a entrevistadora&#8217;, os rostos, os tais que eu conhecia, afastaram-me para n\u00e3o incomodar o senhor Arquitecto. Foi a\u00ed que Siza Vieira parou. Sorriu olhou-me nos olhos e disse que falar\u00edamos depois da palestra. Sem me dar conta estudantes e curiosos colaram-se \u00e0 ondula\u00e7\u00e3o da nossa conversa. Nesse dia gravei as suas pautadas e s\u00e1bias palavras. Mas gravei tamb\u00e9m, e para sempre, a sua generosa simplicidade.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o-me nas emo\u00e7\u00f5es\u00a0da sua filha Joana,\u00a0sempre que fala da M\u00e3e. E passados alguns dias de ter recebido esta carta por um Mensageiro, n\u00e3o quis deixar de a passar tamb\u00e9m nesta plataforma.\u00a0Desconhecia o\u00a0tesouro. E \u00e9 neste\u00a0preciso momento que volto a confirmar, plena da miss\u00e3o, mas sobretudo do privil\u00e9gio, do que \u00e9, e do que foi\u00a0estar incondicionalmente ao lado de algu\u00e9m\u00a0que decide partir.<\/p>\n<p>Afinal h\u00e1\u00a0sempre um precip\u00edcio. Na pele. Mas tamb\u00e9m na alma. E \u00e9 tamb\u00e9m essa, uma das mais nobres condi\u00e7\u00f5es humanas. A de que afinal \u00e9 tamb\u00e9m nas\u00a0nossas mais profundas perdas,\u00a0que construimos, construiremos sempre, a mais bela\u00a0humanidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32200\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-1-610x355.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 1\" width=\"610\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-1-610x355.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-1-276x161.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-1-768x447.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-1.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<p>OS MIST\u00c9RIOS DE MARIA ANT\u00d3NIA<\/p>\n<div>Desenhava como ningu\u00e9m e morreu aos 32 anos nos bra\u00e7os de \u00c1lvaro Siza. O arquiteto assumiu uma viuvez eterna, com as causas da morte a alimentarem especula\u00e7\u00f5es. O Expresso conta pela primeira vez a hist\u00f3ria da mulher cuja obra chega agora \u00e0 Gulbenkian.<\/div>\n<div>texto de\u00a0<a href=\"http:\/\/expresso.sapo.pt\/autores\/2015-05-03-Valdemar-Cruz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Valdemar Cruz<\/a><\/div>\n<p>No final daquela madrugada amanhece a eternidade de uma dor indiz\u00edvel. Numa cama, uma mulher. Um rosto ausente. Um olhar vazio. Na mesma cama, um homem. O sobressalto do despertar. O olhar perplexo. O alvoro\u00e7o do inesperado. Ela, prostrada. Pela face escorre-lhe um d\u00e9bil fio p\u00farpura. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 deste mundo. Ele, petrificado. J\u00e1 o mundo se lhe desmorona. Ainda lhe pressente um \u00faltimo suspiro. Tenta agarrar as fr\u00e1geis r\u00e9stias de esperan\u00e7a. \u00c9 tarde. \u00c9 o fim. S\u00e3o os gritos abafados. \u00c9 o adeus absoluto aos sorrisos, \u00e0s gra\u00e7as, \u00e0s poses arrebatadas, aos esmorecimentos, aos dramas do quotidiano, aos dias de cria\u00e7\u00e3o febril, aos geniais desenhos de um mundo outro criados por Maria Ant\u00f3nia Siza. Tem 32 anos. Morre \u00e0s 6h30 da manh\u00e3 do dia 11 de janeiro de 1973. \u00c1lvaro Siza Vieira segura-a naqueles instantes finais. \u00c9 o horror. \u00c9 a desmesura da m\u00e1goa. \u00c9 tarde. \u00c9 infinitamente tarde.<\/p>\n<p>S\u00e3o passados 43 anos desde aquela manh\u00e3 cravada na mem\u00f3ria de quantos tiveram a oportunidade de conviver com a singular personalidade de Tot\u00f3, como lhe chamavam os mais chegados. H\u00e1 todo um oceano de tempo, de acontecimentos, de viv\u00eancias a separar aquele dia final de quem hoje a recorda. H\u00e1 todo um mundo de sil\u00eancios, de n\u00e3o ditos, ao longo dos anos constru\u00eddos \u00e0 volta das circunst\u00e2ncias de morte de uma mulher capaz de irromper numa sala como um furac\u00e3o. N\u00e3o deixava ningu\u00e9m indiferente. Podia, at\u00e9, ser inconveniente. Podia criar embara\u00e7os. N\u00e3o podia jamais deixar de ser a personifica\u00e7\u00e3o de um estranho sentido de liberdade numa \u00e9poca marcada por medos. Havia em Maria Ant\u00f3nia um invej\u00e1vel lado solar capaz de contagiar de alegria quem com ela compartilhava viv\u00eancias. Se estava bem, desenhava a um ritmo quase febril. Cada desenho nascia de um risco s\u00f3. De um \u00fanico movimento. Sem estudos pr\u00e9vios. Sem rasuras. Com uma rara no\u00e7\u00e3o e um inusitado controlo da imagem. Desenhava contra todas as regras estabelecidas pela ortodoxia. Desenhava como ningu\u00e9m. O reverso plasmava-se nos momentos de aus\u00eancia. Afundava-se no lado escuro da lua. Uma fronteira dif\u00edcil de perceber e acompanhar. Desistia do desenho. Desistia da alegria. Parecia desistir dos outros.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32203\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-4-610x410.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 4\" width=\"610\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-4-610x410.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-4-276x185.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-4-768x516.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-4.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<h5>No deserto do Sara com o marido e um pneu furado<\/h5>\n<p>A morte inesperada de uma mulher jovem, a abarrotar de talento, conhecida pela sua beleza, atormentada por algumas patologias, tamb\u00e9m do foro psicol\u00f3gico, na sequ\u00eancia de um trauma p\u00f3s-parto, depressa se transforma em campo f\u00e9rtil para o nascimento de um mito urbano ainda hoje n\u00e3o desfeito. Aos olhos de importantes franjas de amigos e conhecidos, Maria Ant\u00f3nia ter-se-ia suicidado. A pergunta, sussurrada, \u00e0s vezes colocada com um misto de timidez e curiosidade pr\u00f3pria da devassa, desabava a cada instante nas m\u00faltiplas conversas necess\u00e1rias \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o desta viagem aos percursos e aos mist\u00e9rios de uma mulher perdida na circunst\u00e2ncia de, afinal, ter nascido antes de tempo.<br \/>\nFalar de Maria Ant\u00f3nia transforma-se numa esp\u00e9cie de interdito e Siza projeta a imagem de um homem s\u00f3, atingido por um sofrimento indiz\u00edvel<br \/>\nCom 40 anos \u00e0 data da morte da mulher, \u00c1lvaro Siza assume uma \u201cviuvez eterna\u201d, nas palavras de um dos grandes amigos do casal, Carlos Morais, um ex-engenheiro civil do LNEC, agora psicoterapeuta psicoanal\u00edtico com consult\u00f3rio no Chiado, em Lisboa. \u201cA for\u00e7a an\u00edmica, afetiva e emocional da Tot\u00f3 era t\u00e3o grande, que ele a acha irrepet\u00edvel\u201d, revela.<\/p>\n<p>Falar de Maria Ant\u00f3nia torna-se uma esp\u00e9cie de interdito e Siza projeta a imagem de um homem s\u00f3, atingido por um sofrimento indiz\u00edvel. N\u00e3o por acaso, passam anos desde o primeiro momento em que lhe sugerimos a ideia deste trabalho, de modo a proporcionar a divulga\u00e7\u00e3o de uma obra no essencial desconhecida. Apesar de ter deixado mais de mil desenhos e uns tantos quadros a \u00f3leo, em vida exp\u00f4s uma \u00fanica vez, em 1970, na \u00c1rvore. Em novembro de 2002, um conjunto de acasos proporcionou uma segunda mostra dos seus desenhos na cooperativa portuense, de seguida apresentados no C\u00edrculo de Belas Artes, em Madrid. Depois, e de novo, o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos uma explica\u00e7\u00e3o. Se o abord\u00e1vamos e o tema passava por Maria Ant\u00f3nia, \u00c1lvaro Siza n\u00e3o conseguia deixar de expressar o quanto lhe seria \u201cdoloroso\u201d, bem como para os filhos, regressar a estas mem\u00f3rias. \u201c\u00c9 prematuro\u201d, insistia. At\u00e9 por ser \u201cimposs\u00edvel falar da obra sem falar da pessoa\u201d. H\u00e1 uns meses algo mudou. Depois de nova abordagem, vai pela primeira vez um pouco mais longe e adianta terem sido os anos finais de Tot\u00f3 \u201cmuito dram\u00e1ticos\u201d. Ap\u00f3s o nascimento da filha, Joana, \u201cdesenvolveu uma neurose p\u00f3s-parto, que acontece muitas vezes, mas no caso dela teve uma evolu\u00e7\u00e3o m\u00e1. Tinha per\u00edodos de estar muito bem e, depois, entrava numa depress\u00e3o grande\u201d. Por tudo isso, acrescentava, \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil e pode ser um choque grande\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32207\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-8-610x403.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 8\" width=\"610\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-8-610x403.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-8-276x182.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-8-768x507.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-8.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<h5>F\u00e9rias em Marrocos<\/h5>\n<p>O pudor determina a op\u00e7\u00e3o do arquiteto. H\u00e1 uma obriga\u00e7\u00e3o de decoro na abordagem de um drama familiar com sequelas inimagin\u00e1veis para quem n\u00e3o as vive. \u201cO apoio das duas av\u00f3s foi essencial, mas h\u00e1 uma coisa que \u00e9 insubstitu\u00edvel. A m\u00e3e faz uma falta que nem se imagina\u201d, vir\u00e1 a dizer mais tarde \u00c1lvaro Siza, num domingo de manh\u00e3, durante uma rara conversa tida na solid\u00e3o do seu escrit\u00f3rio com vista para a serenidade das \u00e1guas do Douro.<\/p>\n<p>A oportunidade para avan\u00e7ar coincide com uma outra importante decis\u00e3o do arquiteto. Na sequ\u00eancia da defini\u00e7\u00e3o de destinos para o seu esp\u00f3lio, dividido entre o Centro Canadiano de Arquitetura, em Montreal, a Funda\u00e7\u00e3o de Serralves e a Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian, Siza opta por iniciar o processo \u2014 em curso \u2014 de doa\u00e7\u00e3o de uma centena de desenhos de Maria Ant\u00f3nia ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Est\u00e1vamos no final de julho e, para alegria depois manifestada pelos filhos, abre-se \u00e0 possibilidade de ser lan\u00e7ado um olhar sobre a vida e a obra da mulher, nascida a 25 de maio de 1940 na Avenida da Boavista.<\/p>\n<p>\u201cQue maravilha, ainda bem que se vai falar da minha m\u00e3e\u201d, s\u00e3o as primeiras palavras de Joana, 51 anos, a segunda filha do casal Siza, mal inicia uma conversa \u00e0 volta das mem\u00f3rias de algu\u00e9m para quem aquela figura \u00e9 sobretudo o resultado da reconstru\u00e7\u00e3o de algumas mem\u00f3rias pessoais com as narrativas por outros proporcionadas. N\u00e3o obstante ter apenas 8 anos \u00e0 data da morte, Joana assegura ter \u201cassistido \u00e0 dor mais funda\u201d da m\u00e3e.<\/p>\n<p>O filho mais velho, \u00c1lvaro, 53 anos, hoje um arquiteto com uma obra muito relevante, tinha 10 anos e recorda a evoca\u00e7\u00e3o do drama com a naturalidade de quem sabe que \u201ctodas as pessoas tiveram uma hist\u00f3ria\u201d. Tamb\u00e9m ele sente como que um al\u00edvio por esta esp\u00e9cie de cair de muros para, de forma descomplexada, se falar de uma mulher cuja obra admira e sente merecer maior divulga\u00e7\u00e3o, desde logo pela imensid\u00e3o de sentimentos expressos atrav\u00e9s dos desenhos.<br \/>\nMaria Ant\u00f3nia nasce oito anos ap\u00f3s o casamento dos pais, Alberto Leite, empregado de escrit\u00f3rio, apreciador de arte e pintor nas horas vagas, e Maria Lu\u00edsa Marinho, filha e neta de industriais t\u00eaxteis. A irm\u00e3, Lu\u00edsa Marinho, quatro anos mais velha, recorda-se de uma Tot\u00f3 \u201cviva\u00e7a, muito expansiva\u201d, mas a quem desde nascen\u00e7a fora detetado um leve sopro card\u00edaco. Com uma educa\u00e7\u00e3o austera e um ambiente familiar muito marcado pelos anos da II Guerra Mundial, Maria Ant\u00f3nia, tal como as irm\u00e3s, come\u00e7a por frequentar o Col\u00e9gio Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, propriedade do Instituto das Religiosas do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Maria em Portugal. Passa depois como interna pelo Col\u00e9gio do Sard\u00e3o, em Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, pertencente ao Instituto das Irm\u00e3s de Santa Doroteia. Frequenta ainda o Liceu Carolina Michaelis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32202\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-3-610x420.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 3\" width=\"610\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-3-610x420.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-3-276x190.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-3-768x529.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-3.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<h5>F\u00e9rias em Caminha, com Siza, a filha Joana e os Soutinho<\/h5>\n<p>A inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia decorrem no ambiente pr\u00f3prio de uma fam\u00edlia grande e com posses. Terminado o ano escolar, o tempo reparte-se entre os quase tr\u00eas meses de f\u00e9rias nas praias da Foz, com passagens, a partir de 1945, e sempre em setembro, por uma casa de f\u00e9rias comprada pelo pai a umas centenas de metros do in\u00edcio da escadaria do Bom Jesus, em Braga.<\/p>\n<p>Aos 17 anos entra na Escola de Belas Artes e \u00e9 todo um novo caminho a abrir-se para uma jovem oriunda de uma fam\u00edlia conservadora, marcada por uma grande religiosidade e pouco dispon\u00edvel para aceitar a abertura nos costumes. \u00c0 \u00e9poca bastava ter o ent\u00e3o 5\u00ba ano dos liceus, atual 9\u00ba ano, para aceder a uma escola onde come\u00e7avam a cruzar-se jovens das mais diversas proveni\u00eancias destinados a marcarem a segunda metade do s\u00e9culo XX portugu\u00eas, na pintura, na escultura ou na arquitetura. Jos\u00e9 Rodrigues, \u00c2ngelo de Sousa, Armando Alves, \u00c1lvaro Siza, Alves Costa, Jorge Pinheiro, Jos\u00e9 Grade, entre outros. Partilha o ritmo escolar com grandes amigas, como Lu\u00edsa Brand\u00e3o, e tanta gente respons\u00e1vel por um ambiente sem paralelo, muito incentivado pelo diretor da escola, Carlos Ramos. Lu\u00edsa, a irm\u00e3, tamb\u00e9m j\u00e1 l\u00e1 andava e fazia inclusive parte de uma comiss\u00e3o de rece\u00e7\u00e3o dos caloiros.<\/p>\n<p>Maria Ant\u00f3nia d\u00e1 nas vistas mal chega. Desde logo pela sua beleza. Depois, pela qualidade do desenho. Ainda no primeiro ano, Carlos Ramos chama-a por ter visto um dos seus trabalhos, felicita-a e vaticina-lhe: se continuar assim, vai muito longe. \u201cFoi uma coisa que lhe deu muita satisfa\u00e7\u00e3o e muito entusiasmo\u201d, admite Siza.<\/p>\n<h5><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32204\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-5-610x422.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 5\" width=\"610\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-5-610x422.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-5-276x191.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-5-768x532.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-5.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/h5>\n<h5>Em F\u00e3o, com Alvarinho, ao centro, Laura Soutinho a pentear-se e Rui Leal e J\u00falio Ansi\u00e3es \u00e0 direita<\/h5>\n<p>Nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis os caminhos para quem ousa desviar-se da norma ou dos consensos estabelecidos. \u00c9 de novo o arquiteto a recordar um epis\u00f3dio ocorrido num outro ano, aquando da habitual exposi\u00e7\u00e3o de trabalhos dos alunos na Aula Magna. Tratava-se de um momento importante da escola, com discurso do diretor e elabora\u00e7\u00e3o de um cat\u00e1logo. Dessa vez, Maria Ant\u00f3nia n\u00e3o tem nenhum desenho selecionado e o j\u00e1 namorado, \u00c1lvaro Siza, mais velho sete anos, resolve questionar um dos respons\u00e1veis pela escolha. \u201cO que me foi dito \u00e9 que sa\u00eda do esp\u00edrito da exposi\u00e7\u00e3o. Realmente sa\u00eda. Era melhor\u201d, comenta com c\u00e1ustica ironia.<\/p>\n<p>Em boa verdade, a quest\u00e3o, diz agora, \u201cnem era ser melhor ou n\u00e3o. Houve uma fase em que na linha da frente estava o abstrato. Isso ela nunca fez. Tinha uma especial aten\u00e7\u00e3o pelo corpo. Na maior parte daqueles desenhos n\u00e3o h\u00e1 paisagem. \u00c9 o corpo. Ambiente h\u00e1, mas por outro meio\u201d. Caso tivesse vivido mais tempo, poderia ter tido grande notoriedade. Tanto mais que, constata, \u201cpoucos anos depois aparece a Paula Rego, por exemplo. O figurativo, na altura dela considerado uma coisa do passado, volta\u201d e ganha nova cidadania.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa Brand\u00e3o, arquiteta, madrinha do primeiro filho do casal Siza, \u00c1lvaro, como o pai, para sempre Alvarinho para os mais chegados, toda a vida ter\u00e1 conhecido Maria Ant\u00f3nia, em particular dos tempos da Foz, onde a neta do industrial t\u00eaxtil passava grandes temporadas de praia. Nas Belas Artes aprofundam a amizade e Lu\u00edsa, que chega a ser casada com Alexandre Alves Costa, assegura que Tot\u00f3 podia, se quisesse, ser a melhor aluna do curso. Por\u00e9m, n\u00e3o aspirava, sequer \u201ca ser uma grande artista\u201d. Era \u201cgenial a desenhar, mas tinha problemas porque muitas vezes n\u00e3o conseguia acabar as coisas\u201d. A rela\u00e7\u00e3o com os professores era paradoxal. Segundo Lu\u00edsa, \u201cn\u00e3o faziam dela o que queriam. Ela \u00e9 que desenhava como queria e n\u00e3o se deixava levar por ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Seria um esp\u00edrito indom\u00e1vel. De alguma forma assim a recorda Alves Costa, apesar de vir \u201cde uma fam\u00edlia muito castradora e conservadora\u201d. Lu\u00edsa, a irm\u00e3, discorda. \u201cEra apenas uma quest\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o\u201d, garante. Ainda assim, Tot\u00f3 toma conta do seu destino. \u201cSe a prendiam em casa, fugia\u201d, assegura o arquiteto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32201\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-2-610x423.jpeg\" alt=\"Maria Antonia Siza 2\" width=\"610\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-2-610x423.jpeg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-2-276x191.jpeg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-2-768x533.jpeg 768w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-2.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<h5>Maria Ant\u00f3nia d\u00e1 nas vistas mal chega \u00e0 Escola de Belas Artes. Desde logo pela sua beleza, depois pela qualidade do desenho, real\u00e7ada pelo diretor Carlos Ramos<\/h5>\n<p>Ant\u00f3nio Carlos, 78 anos, irm\u00e3o de Siza, quatro anos mais novo, conhecia-a desde a frequ\u00eancia do liceu, e fala tamb\u00e9m de uma Maria Ant\u00f3nia \u201ca reagir contra o esp\u00edrito burgu\u00eas das grandes fam\u00edlias, de que era origin\u00e1ria\u201d. Assume-se \u201cconvencido que essa foi uma das causas dos seus problemas\u201d, at\u00e9 pelas muitas inquieta\u00e7\u00f5es religiosas que a atormentavam, reconhecidas pela irm\u00e3 quando admite a exist\u00eancia desse desassossego \u201cdesde a adolesc\u00eancia\u201d. Ant\u00f3nio Carlos vai mais longe e garante que a cunhada tinha \u201co terror de morrer em pecado. O peso da educa\u00e7\u00e3o religiosa era uma coisa tenebrosa naquele tempo\u201d, sublinha. Lu\u00edsa Brand\u00e3o relembra tamb\u00e9m uma amiga \u201cdominada pelo medo religioso\u201d e frequentadora ass\u00eddua das missas dominicais.<\/p>\n<p>Ao evocar o in\u00edcio do namoro, nas Belas Artes, e o posterior casamento, \u00c1lvaro admite ter sido cativado pela beleza, \u201cmas tamb\u00e9m pelo temperamento\u201d daquele \u201cesp\u00edrito radicalmente livre\u201d. Introvertido, o jovem arquiteto n\u00e3o era de festas. Maria Ant\u00f3nia transforma-o por completo. Siza passa a ter uma vida \u201cque n\u00e3o tinha antes de maneira nenhuma. Havia festas e dan\u00e7ava-se. Tudo o contr\u00e1rio do que era a minha personalidade\u201d. Muito viva, extrovertida, com muito humor, Maria Ant\u00f3nia, recorda, \u201cse estava nos seus dias, entrava numa sala e enchia a sala, enquanto eu, entrando, n\u00e3o enchia coisa nenhuma\u201d. Olha para tr\u00e1s e reconhece ter-se adaptado \u201cmuito bem \u00e0quela vida\u201d. Considerava-se \u201cum bicho do buraco\u201d e, constata, \u201cnas rela\u00e7\u00f5es que depois perduraram, algumas vinham de amizades dela\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7am por viver juntos, em 1961, na agora Rua Arquiteto Marques da Silva, na zona do Bom Sucesso. Pagam 750 escudos de renda mensal e cinco anos volvidos mudam-se para a zona de Francos, ainda assim nas imedia\u00e7\u00f5es da Boavista. Alvarinho j\u00e1 nascera, mas o ambiente \u201cera trist\u00edssimo. N\u00e3o havia nada \u00e0 volta e tudo era longe\u201d. Maria Ant\u00f3nia sente-se muito isolada e n\u00e3o aguentam l\u00e1 mais de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/images-cdn.impresa.pt\/expresso\/2015-11-05-RDS_ReproducoesSizaVieira_04_T-_IDP?v=original&amp;mw=1024\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"440\" \/><\/p>\n<div>\n<p>O apelo \u00e0 mudan\u00e7a \u00e9 potenciado pela circunst\u00e2ncia de v\u00e1rios amigos, arquitetos e pintores, terem ido viver para os novos e excelentes pr\u00e9dios do chamado \u201cLima 5\u201d, da autoria de Jos\u00e9 Carlos Loureiro e P\u00e1dua Ramos, situados entre as ruas da Alegria e da Constitui\u00e7\u00e3o. Embora o ponto de partida tenha sido marcado por enormes dificuldades, \u00c1lvaro Siza acaba por ficar l\u00e1 mais de 40 anos, at\u00e9 por ter o escrit\u00f3rio na Rua da Alegria. A renda, demasiado elevada (1100 escudos mensais) para os rendimentos da \u00e9poca, atormentava-o por permanecer a d\u00favida sobre como aguentariam aquele esfor\u00e7o financeiro.<\/p>\n<p>O que de in\u00edcio parecia uma decis\u00e3o de grande risco, transforma-se com o tempo numa afortunada escolha. Ali lhe morre a mulher, \u00e9 certo. Mas ali s\u00e3o criados os filhos. Ali recebe o apoio permanente e solid\u00e1rio dos amigos. Laura Soutinho, mulher do recentemente falecido Alcino Soutinho, sempre na primeira linha daquele suporte, tamb\u00e9m l\u00e1 vivia e real\u00e7a o papel daquela \u201cesp\u00e9cie de ilha dos arquitetos\u201d como uma comunidade crucial para Tot\u00f3 enquanto l\u00e1 viveu e decisiva, depois, no acompanhamento solid\u00e1rio de uma fam\u00edlia destro\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u00c9 um grupo muito unido, embora n\u00e3o fechado, e com um enorme desejo de viagem. Uma das mais marcantes e hoje m\u00edtica tem como destino Marrocos, ao ponto de 44 anos depois, em dezembro de 2011, ter sido lan\u00e7ado no Palacete Pinto Leite, no Porto, a abarrotar de gente, o livro \u201cMarrocos 1967\u201d, assinado por Alexandre Alves Costa e \u00c1lvaro Siza, e editado pela Circo de Ideias.<\/p>\n<p>Maria Ant\u00f3nia j\u00e1 fora a Paris de comboio, aos 17 anos, com a irm\u00e3. Antes viajara apenas at\u00e9 Santiago de Compostela, na companhia dos pais. Nesse dia, sem saber do futuro, cruza-se, sem estabelecer contacto, com o homem com quem vir\u00e1 a partilhar a parte decisiva da sua breve exist\u00eancia. \u00c1lvaro coincidira naquele dia em Santiago, tamb\u00e9m acompanhado dos pais. Todavia, \u00e9 a viagem a Marrocos a tornar-se marcante para todos quantos nela participam.<\/p>\n<p>S\u00e3o mais de 20 dias a viajar de autom\u00f3vel tornados lend\u00e1rios pelas perip\u00e9cias vividas. Lu\u00edsa Brand\u00e3o vai gr\u00e1vida e Tot\u00f3 apresenta j\u00e1 algumas dificuldades em dormir. Distribu\u00eddos por um Renault 4L e por um Fiat 850, partem sete jovens \u00e0 procura do diferente proporcionado pelo outro. Siza leva \u201co pior carro\u201d da sua vida, um Fiat 850, ao ponto de j\u00e1 em Marrocos, ter pensado desistir. Nele seguiam a mulher e o tamb\u00e9m arquiteto Jos\u00e9 Grade. O Renault levava Alves Costa e Lu\u00edsa, al\u00e9m de S\u00e9rgio Fernandez e uma jovem sueca. N\u00e3o lhes interessava apenas a arquitetura das cidades imperiais. Queriam o encontro com as gentes e as culturas.<\/p>\n<p>Os passeios \u00e0 \u00e9poca, eram curtos. Ficavam-se quase sempre por Portugal e Espanha. N\u00e3o havia dinheiro para mais. Com a escola, Siza acaba por ir \u00e0 Finl\u00e2ndia em 1968. Tot\u00f3 fica no Porto, entre outras raz\u00f5es, sugere a arquiteta Cec\u00edlia Cavaca, por ter medo de viajar de avi\u00e3o. Lembra uma anterior incurs\u00e3o em It\u00e1lia, durante um m\u00eas e fala dos grupos grandes que se constitu\u00edam para estes percursos, com, al\u00e9m deles pr\u00f3prios e de Siza, Fernando T\u00e1vora, os Soutinho, S\u00e9rgio Fernandez, Rolando Torgal, Alves Costa e outros.<\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/images-cdn.impresa.pt\/expresso\/2015-11-05-RDS_ReproducoesSizaVieira_03_T-_IDP?v=original&amp;mw=1024\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"439\" \/><\/p>\n<div>\n<p>Rog\u00e9rio e Cec\u00edlia Cavaca, mais novos, integram o grupo apenas a partir de 1965. Quando a conhecem, Tot\u00f3 acabara de sair de um tratamento da neurose p\u00f3s-parto. \u201cNa verdade nunca ter\u00e1 acabado\u201d, diz Cec\u00edlia. Segundo conta, \u201ctomava estimulantes para estar bem disposta e outros comprimidos para dormir\u201d, com alguns medicamentos a virem de Inglaterra.<\/p>\n<p>H\u00e1 demasiados transtornos a abat\u00ea-la. Mais de uma vez imp\u00f5e-se a necessidade de ser internada. Carlos Morais, porventura a pessoa com quem mais Tot\u00f3 se ter\u00e1 correspondido, at\u00e9 por viver em Lisboa, sentia-a demasiado condicionada pelo facto de se ver obrigada a \u201ctomar medicamentos em excesso. Sucessivamente foi ficando muito fora do circuito, fora da a\u00e7\u00e3o\u201d. Tinha per\u00edodos de letargia. Quando regressava, quando o humor se lhe tornava um estado natural, era outra.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a de atitude fica patente na muita correspond\u00eancia travada entre ambos. Fala de cinema, dos filmes da vida, da paix\u00e3o por Luchino Visconti. Numa das cartas revela um entusiasmo desmesurado por um disco acabado de comprar. \u00c9 o famoso \u201cTime Out\u201d, de Dave Brubeck. \u201c\u00c9 bom demais. Leva-me \u00e0s nuvens\u201d, escreve. Numa outra correspond\u00eancia anuncia a Carlos, ele pr\u00f3prio um grande cin\u00e9filo, ter visto o segundo melhor filme da sua vida; opini\u00e3o, esclarece, partilhada por \u00c1lvaro. No pedestal est\u00e1 \u201cCidad\u00e3o Kane\u201d, de Orson Welles. Segue-se \u201cSalvatore Giuliano\u201d, um filme sobre a Mafia siciliana realizado em 1962 por Francesco Rosi. \u201cNunca vi t\u00e3o bom\u201d, exclama. Logo de seguida, um coment\u00e1rio feito de uma deliciosa ironia: \u201cDepois deste filme s\u00f3 tive uma conclus\u00e3o a tirar: O Salazar n\u00e3o pode ser doutra coisa sen\u00e3o da Mafia. Se n\u00e3o \u00e9, porque \u00e9 que ainda n\u00e3o lhe atiraram com uma bomba?\u201d<\/p>\n<p>Numa carta escrita ap\u00f3s um longo per\u00edodo de sil\u00eancio narra uma viagem a Londres e o ins\u00f3lito de ter Siza a medir \u201c10 milh\u00f5es de casas palmo a palmo\u201d, por ser essa a sua forma de ver arquitetura. Escreve sobre os filhos, \u201cduas crian\u00e7as felizes que passaram a minha doen\u00e7a horrorosa sem imagens traumatizantes\u201d e conclui a desculpar-se. \u00c9-lhe dif\u00edcil escrever por tremer \u201cimenso da m\u00e3o. Por causa disso \u00e9 que n\u00e3o tenho podido pintar, o que para mim \u00e9 horroroso\u201d.<\/p>\n<p>Nos melhores momentos, o desenho, de quando em vez a pintura, surgem-lhe como uma salva\u00e7\u00e3o. Numa carta para Carlos datada de 25 de outubro de 1967 refere: \u201cAl\u00e9m de a minha costumada verve ter perdido o brilho, acabei agora de fazer um desenho que me deu cabo da cabe\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Os desenhos, diz-nos agora Siza, mesmo ap\u00f3s longas paragens, \u201csurgiam como se tivesse treinado todo o tempo. Era o que mais o espantava\u201d. Laura Soutinho enfatiza o facto de Tot\u00f3 desenhar por puro prazer, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o de carreira. \u201cPegava numa caneta, come\u00e7ava pelos p\u00e9s e desenhava num plano s\u00f3. N\u00e3o parava. S\u00f3 interrompia para assinar\u201d, mas at\u00e9 isso raras vezes acontecia. Utilizava uma t\u00e9cnica, diz \u00c1lvaro, desenvolvida ao arrepio \u201cde todas as regras ortodoxas. \u00c9 muito dif\u00edcil. H\u00e1 as propor\u00e7\u00f5es gerais do corpo. Se se come\u00e7a por um p\u00e9, por um dedo, facilmente se falha nas propor\u00e7\u00f5es. H\u00e1 muita gente que esbarra quando chega aos p\u00e9s ou \u00e0s m\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Com uma exig\u00eancia total e uma invulgar intui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, n\u00e3o falhava. Come\u00e7ava e, ou tudo sa\u00eda a seus olhos perfeito \u00e0 primeira, ou rasgava. Amarrotava. Deitava fora. Era de igual modo genial na gravura, como a todos espantava com a riqueza dos seus bordados. Chega a contratar uma bordadeira para concretizar os desenhos e acaba tamb\u00e9m por os expor na \u00c1rvore. Eram lind\u00edssimos, diz quem os viu. Quando convidado por Maria Ant\u00f3nia a escolher um dos seus trabalhos expostos na cooperativa, o pintor Lu\u00eds Noronha da Costa ter\u00e1 surpreendido ao optar, precisamente, por um dos bordados.<\/p>\n<p>Taxativo ao assegurar nunca ter visto ningu\u00e9m desenhar assim, Alexandre Alves Costa revela haver ali, naquela de quem diz ter sido a mulher mais interessante que conheceu, \u201calgo fora do normal, o que dava um car\u00e1cter quase surrealista \u00e0s coisas que desenhava\u201d. Apresentava um mundo \u201cpelo menos estranho\u201d. Inventou um mundo novo. \u201cUm mundo libert\u00e1rio, muito sensual, muito f\u00edsico\u201d e de igual modo perturbante. Ao ponto de, assegura, possuir algumas pinturas dela que n\u00e3o se atreve a colocar na parede.<\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-32216\" src=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-71-610x428.jpg\" alt=\"Maria Antonia Siza 7\" width=\"610\" height=\"428\" srcset=\"https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-71-610x428.jpg 610w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-71-276x194.jpg 276w, https:\/\/www.sanchatrindade.com\/published\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Maria-Antonia-Siza-71.jpg 728w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/p>\n<div>\n<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Porf\u00edrio, cr\u00edtico de arte do Expresso, recorda o primeiro contacto com a obra, acontecido por acaso na mostra de 2002. Ao entrar na sala da cooperativa \u00c1rvore v\u00ea \u201cum corpo meio desfeito, uns olhos em espiral\u201d e percebe logo estar num territ\u00f3rio diferente. Tudo aquilo, diz, \u201cest\u00e1 no limite da express\u00e3o\u201d e h\u00e1 compara\u00e7\u00f5es que podem ser feitas com um expressionista como M\u00e1rio Eloy. \u201cH\u00e1 alguns desenhos que parece que implodem, tal como alguns desenhos da velhice de Picasso\u201d. Ao olhar para as figuras mais estilizadas ocorre-lhe a compara\u00e7\u00e3o com Leonor Fini (1908-1996), pintora surrealista nascida na Argentina filha de m\u00e3e italiana e com obra espalhada por importantes museus de quase todo o mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 nos desenhos de Maria Ant\u00f3nia um lado de exce\u00e7\u00e3o que muito lhe interessa, e n\u00e3o tanto \u201ca pessoa que s\u00f3 desenha muito bem\u201d. Percebe-se \u201cque h\u00e1 ali um drama\u201d, prossegue. Para o cr\u00edtico, a artista, \u201cestava presa dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a e representa uma singularidade\u201d. Porf\u00edrio revela-se convencido de que Maria Ant\u00f3nia \u201ce os seus desenhos ter\u00e3o sido um enigma para \u00c1lvaro Siza\u201d. O sofrimento \u201cque os desenhos dela representam merece respeito\u201d, sustenta.<\/p>\n<p>Esp\u00edrito \u201cradicalmente livre\u201d, sem preocupa\u00e7\u00e3o de carreira, pegava \u201cnuma caneta, come\u00e7ava pelos p\u00e9s e desenhava num plano s\u00f3\u201d, contra todas \u2028a regras<\/p>\n<p>Ao embrenhar-se naquele mundo criado por Maria Ant\u00f3nia, Bernardo Pinto de Almeida, cr\u00edtico de arte, autor do texto inserido no cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o na \u00c1rvore depara-se com \u201cuma artista que apesar de ter morrido muito jovem, tinha uma obra fulgurante\u201d. A ter continuado, diz, \u201cteria sido um momento referencial naquele per\u00edodo em que na sequ\u00eancia do modernismo apareciam no Porto \u00c2ngelo de Sousa, Jorge Pinheiro, Ant\u00f3nio Quadros, os 4 Vintes, e na arquitetura o Alcino Soutinho, o Alves Costa, o \u00c1lvaro Siza\u201d.<\/p>\n<p>Para l\u00e1 do dom\u00ednio t\u00e9cnico, os desenhos, afirma ainda Bernardo, \u201cexprimem um universo psicol\u00f3gico e est\u00e9tico que faz dela uma artista muito pr\u00f3xima de uma raiz expressionista, que na arte portuguesa n\u00e3o chegou a ter o reconhecimento suficiente\u201d. \u00c1lvaro Siza concorda. \u201cS\u00e3o figuras muito fortes. H\u00e1 um expressionismo evidente. Alguns desenhos s\u00e3o mesmo violentos. Outros s\u00e3o dram\u00e1ticos, mas essa n\u00e3o foi sempre a sua op\u00e7\u00e3o.\u201d Por vezes entretinha-se a desenhar para os filhos e tudo era diferente.<\/p>\n<\/div>\n<table class=\"tr-caption-container\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/images-cdn.impresa.pt\/expresso\/2015-11-05-RDS_ReproducoesSizaVieira_01_T-_IDP?v=original&amp;mw=1024\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"640\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr align=\"left\">\n<td class=\"tr-caption\">\n<h5>EXPRESS\u00c3O A viol\u00eancia expressa na obra da jovem e bela Tot\u00f3, aquela quase raiva expressionista, s\u00f3 com muita dificuldade poderia ter conquistado reconhecimento numa arte portuguesa pacificada \u00e0 for\u00e7a<\/h5>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div>A viol\u00eancia expressa na obra, aquela quase raiva expressionista, s\u00f3 com muita dificuldade poderia ter conquistado o reconhecimento merecido \u201cnuma arte portuguesa pacificada \u00e0 for\u00e7a por anos de pol\u00edtica do esp\u00edrito\u201d, defende Pinto de Almeida. Em sua opini\u00e3o, \u201ch\u00e1 uma dimens\u00e3o er\u00f3tica, pulsional, de inquiri\u00e7\u00e3o das formas que o corpo toma, que se constituem como uma grande singularidade no contexto da \u00e9poca\u201d. Siza refor\u00e7a a ideia da explora\u00e7\u00e3o do corpo. Nota a presen\u00e7a de muitas mulheres. \u201cS\u00e3o desenhos intemporais. Normalmente com roupagem cuja \u00e9poca se desconhece. Por tr\u00e1s da roupagem sentem-se perfeitamente os ossos, o esqueleto, o movimento muito bem conseguido.\u201d Ao colocar de lado, por desinteressantes, \u201cn\u00edveis de express\u00e3o de sofrimento puramente neur\u00f3ticos\u201d, o cr\u00edtico de arte chama a aten\u00e7\u00e3o para os artistas, como Maria Ant\u00f3nia, \u201cque merc\u00ea de um conhecimento da dor, fazem ascender isso a um plano universal. Inscrevem a express\u00e3o do sofrimento em algo que \u00e9 maior que eles\u201d. Fernando Pessoa, M\u00e1rio Eloy, Domingos Alvarez s\u00e3o outros exemplos paradigm\u00e1ticos.<\/div>\n<p>N\u00e3o por acaso, Ant\u00f3nio Carlos, irm\u00e3o de \u00c1lvaro e uma das pessoas que melhor a ter\u00e1 conhecido, olha para os desenhos e quadros dispersos pelo seu andar em Le\u00e7a da Palmeira e n\u00e3o deixa de continuar a impressionar-se com \u201ctodo aquele ambiente barroco, sinistro, misterioso\u201d. Olha de novo e desabafa: \u201cEla n\u00e3o tinha viv\u00eancia para fazer a obra que fez.\u201d<\/p>\n<p>Maria Ant\u00f3nia n\u00e3o chega a concluir o curso de pintura. Faltava-lhe, porventura, a capacidade para controlar o quotidiano em que se deixava enredar. Lu\u00edsa Marinho fala de como lhe era complexo \u201cgerir muitas coisas ao mesmo tempo, ainda por cima com dois filhos. Tinha dificuldade em lidar com tanta responsabilidade e era-lhe tudo muito pesado. Isso deprimia-a\u201d. Cec\u00edlia Cavaca chama \u00e0 cola\u00e7\u00e3o um outro dado essencial. A circunst\u00e2ncia de ser mulher, nos anos 60, em Portugal, n\u00e3o era simples, tanto mais que, sublinha, havia a expectativa de que as mulheres \u201cfossem donas de casa brilhantes\u201d, esposas dedicadas e excelsas m\u00e3es de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ao casar, \u00c1lvaro Siza \u00e9 prevenido pelos familiares de Tot\u00f3 sobre a exist\u00eancia de um \u201cleve problema do cora\u00e7\u00e3o, de nascen\u00e7a, mas recuperado\u201d. Na verdade, durante grande parte da vida passa bem. Depois, prossegue o arquiteto, come\u00e7a a ter problemas de sono, inicia um processo de medica\u00e7\u00e3o e vai perdendo a alegria. Laura Soutinho lembra-se de a ter gr\u00e1vida de Joana no seu casamento com Alcino. Acontece a depress\u00e3o p\u00f3s-parto e nunca mais se liberta. Torna-se v\u00edtima do estado de evolu\u00e7\u00e3o da medicina \u00e0 \u00e9poca. Na atualidade h\u00e1 outras abordagens, outro tipo de tratamentos pass\u00edveis de com relativa facilidade resolver um caso transformado em drama, agudizado pelo alimentar da d\u00favida sobre se Tot\u00f3 teria procurado um fim provocado por si mesma. O filho, Alvarinho, n\u00e3o hesita em assegurar que tiveram \u201cuma inf\u00e2ncia feliz\u201d, mas ao crescer sofre o impacto da especula\u00e7\u00e3o criada. Decide tirar todas as d\u00favidas, esclarecidas com o acesso \u00e0 certid\u00e3o de \u00f3bito, que mais tarde nos \u00e9 mostrada pela Joana. Regista como causa de morte uma embolia pulmonar. \u201c\u00c9 certo que tomava muita medica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, mas a morte decorre dos problemas card\u00edacos identificados desde a inf\u00e2ncia\u201d, enfatiza Lu\u00edsa Marinho.<\/p>\n<p>Os desenhos exprimem um universo psicol\u00f3gico e est\u00e9tico que faz de Maria Ant\u00f3nia \u201cuma artista muito pr\u00f3xima de uma raiz expressionista\u201d<\/p>\n<p>Carlos Morais v\u00ea-a pela \u00faltima vez meses antes do fim. Numa desloca\u00e7\u00e3o ao Porto almo\u00e7am juntos. Maria Ant\u00f3nia n\u00e3o revela grande vivacidade. Ao despedir-se, beija-o na face e desabafa: \u201cJ\u00e1 viste? O \u00c1lvaro vai ser um grande arquiteto e vai ficar vi\u00favo.\u201d Escrito assume uma carga dram\u00e1tica inexistente naquele instante. Isto porque, refere Carlos, embora \u201csentisse que algo se aproximava, ao mesmo tempo diz isto com humor\u201d.<\/p>\n<p>Naquele dia 11 de janeiro de 1973, pouco ap\u00f3s as 6 horas da manh\u00e3, toca o telefone em casa dos Soutinho. Do outro lado do fio ouve-se a voz de \u00c1lvaro. Parece sibilar a desgra\u00e7a sa\u00edda do fundo dos tempos. Ao seu lado, na cama, est\u00e1 Maria Ant\u00f3nia. Morta.<\/p>\n<p>Regressar \u00e0quele instante \u00e9-lhe ainda doloroso. S\u00e3o, por isso, parcas as palavras. \u201cFoi de madrugada, ao meu lado. Estava a dormir e por acaso acordei ouvindo ainda o \u00faltimo suspiro. Foi duro.\u201d<\/p>\n<p>O espanto e a como\u00e7\u00e3o s\u00e3o gerais. Cec\u00edlia e Rog\u00e9rio Cavaca lembram-se de a partir de novembro a verem com febres altas. No Natal aparece \u201cmuito ca\u00edda e pouco antes s\u00e3o enviadas umas an\u00e1lises para Inglaterra\u201d. Os resultados chegam apenas dias ap\u00f3s o falecimento e tra\u00e7am um quadro muito negro. Na noite da morte o casal Cavaca prolonga o ser\u00e3o em casa dos Siza at\u00e9 \u00e0 uma da madrugada. Tudo normal. Na manh\u00e3 seguinte, bem cedo, desaba-lhes o brutal impacto da not\u00edcia.<\/p>\n<p>Alvarinho acompanha o drama. Algu\u00e9m o leva para casa do arquiteto Rolando Torgo. Depois vai para o tio Ant\u00f3nio Carlos. Joana s\u00f3 mais tarde tem no\u00e7\u00e3o de que algo se passa. Est\u00e1 no Col\u00e9gio Nossa Senhora da Paz, chamam-na, e aparece-lhe a tia freira, irm\u00e3 do pai. Diz-lhe: \u201ca m\u00e3e vai para o c\u00e9u\u201d. Fica em estado de choque. Deixam-na \u201cnuma sala, sozinha, \u00e0 espera\u201d que a levem. Naquela noite dorme em casa da tia Irene Siza Vieira.<\/p>\n<p>A partir dali h\u00e1 uma outra e imensa hist\u00f3ria de amizades, de solidariedades, de partilhas. Como dizem Joana e Alvarinho, muita gente se ocupou e preocupou com deles. Desde logo o pai, os av\u00f3s, os tios, mas tamb\u00e9m Alcino e Laura Soutinho, bem como Cec\u00edlia e Rog\u00e9rio Cavaca, ou Lu\u00edsa Brand\u00e3o e Alves Costa e tantos outros, sem esquecer Elisa, a empregada de tantos anos.<\/p>\n<p>Joana emociona-se ao falar da m\u00e3e. Tem uma mem\u00f3ria forte, recolhida bem longe, de ver os pais \u201ca namorar, a dan\u00e7ar na sala\u201d. Alvarinho recupera a imagem de uma m\u00e3e \u201cmuito divertida e com uma tremenda\u201d paix\u00e3o pelo pai. Joana, eterna inconformada com aquele desaparecimento, deixa no ar a interroga\u00e7\u00e3o contida no que diz ser o grande mist\u00e9rio: \u201cPorque teve tanto sofrimento se tinha um homem que tanto a amava?\u201d<\/p>\n<p><em>artigo de Valdemar Cruz publicado pelo <a href=\"http:\/\/expresso.sapo.pt\/Capas\/2015-11-06-Maria-Antonia-Siza-na-Revista-E\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jornal Expresso\u00a0a 7 de Novembro de 2015\u00a0<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 &#8216;um oceano de tempo&#8217; desde que recebo as palavras de Valdemar Cruz at\u00e9 as partilhar nesta plataforma Atl\u00e2ntica. \u00c9 numa tarde no escrit\u00f3rio\u00a0onde me consumo pela velocidade, que\u00a0um Mensageiro obriga-me a parar. No texto lind\u00edssimo trope\u00e7o neste tesouro, que ainda hoje me comove. 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